segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O professor fala e o aluno se cala: o triste reflexo do modelo educacional atual

Como a ausência de participação do estudante em sala de aula se reflete e prejudica a formação profissional e pessoal




Recentemente, ao participar de um seminário, pude presenciar uma valiosa palestra do célebre professor e jurista mineiro, Osmar Brinna Corrêa Lima.

Dentre suas palavras, ele ressaltou um ponto importantíssimo em relação à forma como a educação é conduzida em nosso país:

‘’Na sala de aula, o aluno só escuta. Não tem a oportunidade de falar. Não é sequer estimulado a falar.’’

No momento, confesso que não refleti muito sobre as palavras dele, mas, posteriormente, entendi a sua mensagem. E de fato, ela faz muito sentido.

Tirando aqueles trabalhos em grupo que os professores nos dão no final do ano para garantir as notas de aprovação do curso, e que os estudantes apresentam tal como robôs para o restante da sala, dificilmente o aluno tem a oportunidade de falar, de interagir e discutir verdadeiramente sobre aquele conteúdo.

Ressalto que não estou falando daquele aluno que gosta de mostrar para o restante da classe o quanto ele sabe da matéria, e o quanto ele quer agradar o professor fazendo perguntas óbvias. Mas, sim, de dar oportunidade ao aluno de ir além do que está gravado nos livros. Ir além da repetição, e da automação de que é feito o nosso ensino atualmente.

O aluno não é estimulado a se expressar. A confrontar opiniões. A debater.

E, o mais controverso, muitas vezes recebemos uma prova em que temos que responder uma questão como: "avalie criticamente".

Na qual, a resposta a ser escrita e considerada correta é a opinião do professor.

Espere um momento. Quem deve avaliar criticamente?

A crítica é feita por quem?

A questão então deveria ser: "replique aqui a opinião do professor".

Engraçado como me lembro do que costumava ocorrer em algumas provas de literatura:

- O que o autor quer dizer com o título da obra?

- Qual é a intenção do autor com o título desta obra?

Bom, a menos que o autor tenha declarado em algum lugar, ou escrito no corpo do próprio livro, o único jeito de dar uma resposta correta é entrando na cabeça dele.

Mas, experimente escrever que foi o desejo do autor, ou algo diverso do pretendido pelo professor. Você receberá um zero, bem redondo.

É curioso que em razão dessa falta de oportunidade de falar, de debater, os estudantes estão se graduando e se acostumando com esta situação, tratando esta ideia como algo normal.

Entretanto, quando estes têm a oportunidade de falar ou apresentar uma ideia, acabam ficando extremamente nervosos, ansiosos; tremem, gaguejam, ou ficam sem saber o que dizer.

Afinal, a não ser que a habilidade de se comunicar seja um talento nato, dificilmente conseguiremos executar com êxito quando tivermos oportunidade, já que não treinamos antes, ou sequer tivemos a oportunidade de praticar.

A situação é ainda mais preocupante, já que aprendemos que não devemos nos manifestar ou apresentar uma visão diferente.

Este problema é extremamente comum, e vem sendo enfrentado por todas as gerações, representando uma enorme lacuna na formação de nossos profissionais.

Provavelmente, por esta razão, vemos pessoas repetindo ideias decanas, obsoletas e que estão em determinados livros e doutrina, pois devido à dificuldade de se expressarem, terão de recorrer ao velho método de reproduzir aquilo que aprenderam: utilizar a opinião de outras pessoas que aprendemos como a correta, e a única via de solução.

Afinal, o treinamento foi sempre feito assim: ouvir e se calar. Falar apenas o que está sendo convencionado como o certo.

Curiosamente, é este mesmo método que estuda com afinco e venera pessoas que não se contentaram em seguir esta linha, como Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Henry Ford, entre outros. Pessoas que foram irreverentes, inovadoras, e não se contentaram em seguir um roteiro que lhes foi descrito como o correto.

Esta é mais uma contradição de nosso modelo escolar, que só ressalta que vivemos um ciclo vicioso e limitante em nosso país, repetindo o eterno mantra: seguir o padrão.



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